Gestão de riscos num ciclo perturbado mas resiliente
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No mês transato, os mercados financeiros foram dominados pelas renovadas tensões no Médio Oriente, com reflexos nos preços da energia, e nos mercados do crédito. O resultado foi um aumento da volatilidade, mas, na nossa opinião, os efeitos macroeconómicos traduzem mais um agravamento contido de pressões estagflacionistas pré-existentes do que uma rutura do ciclo económico. As cotações do petróleo registaram um pico de curto prazo, mas a natureza dos atuais choques petrolíferos e a estrutura da economia mundial justificam mais a prudência do que reações alarmistas. Os picos nas cotações do petróleo decorrentes de fatores geopolíticos tendem a inverter-se porque as perturbações na oferta desencadeiam respostas compensatórias, nomeadamente o aumento da produção por parte de produtores não afetados, o recurso aos stocks estratégicos e a contração da procura por parte dos consumidores e da indústria. Num contexto de atividade global ainda resiliente, a atual evolução dos preços do petróleo parece refletir mais a persistência de pressões inflacionistas do que o advento de um novo regime.
Um segundo tema foi a crescente tensão nos mercados do crédito privado. Após anos de rápida expansão, esta classe de ativos está a sofrer as primeiras tensões significativas, que se traduzem por alocações mais seletivas, por uma maior dispersão dos desempenhos e por uma postura mais prudente por parte dos investidores. Consideramos que não se trata de um problema estrutural, mas sim de uma necessária fase de maturação de um mercado jovem. Em contrapartida, os mercados da dívida pública permanecem globalmente calmos, com um alargamento moderado dos spreads e sem sinais significativos de tensões sistémicas. No seu conjunto, estes desenvolvimentos sugerem que os riscos de volatilidade aumentaram (um efeito típico da interseção de fatores geopolíticos com uma expansão tardia do ciclo), mas não deixam antever uma rutura do ciclo subjacente.
Pensamos que a fase atual é definida pelo facto de as despesas de capital (CapEx) estarem a tomar o lugar do consumo e das políticas governamentais. O consumo das famílias normalizou-se após a fase pós-pandemia, os estímulos orçamentais estão a chegar ao fim e o investimento das empresas tornou-se um motor mais importante da atividade global. Esta dinâmica está, em larga medida, associada à inteligência artificial (IA), um movimento transformador que exige vastas infraestruturas físicas. Os centros de dados necessitam de energia, sistemas de refrigeração, hardware especializado e fatores de produção avançados. A difusão da IA estimula o investimento em infraestruturas de computação em nuvem, semicondutores, redes de elevado desempenho e produção de energia. Esta é uma evolução marcadamente física nas suas exigências de investimento.
Como resultado, os beneficiários deste ciclo de CapEx vão muito além dos setores tecnológicos. Os bens industriais, a eletricidade, as infraestruturas energéticas e as matérias-primas estão a ser alvo de uma maior procura. Conforme observa Nicolas Gazin na secção “Perspetivas de mercado” da presente edição, esta situação cria oportunidades para as economias emergentes que forneçam fatores de produção essenciais e para as pequenas e médias capitalizações que operem em segmentos especializados de cadeias de abastecimento revitalizadas. Esta rotação sublinha que o ciclo económico continua a ser autossustentável, com novos motores a ocuparem progressivamente o lugar dos antigos, e que o panorama de investimento se está a alargar à medida que se reduz a concentração nas ações.
No que respeita aos efeitos da IA no mercado do trabalho, Hans Bevers diz-nos, na secção “Em foco” desta edição, que, até ao momento, a disrupção reflete evoluções tecnológicas anteriores. Nos últimos três anos, a evolução das profissões ocorreu a um ritmo equiparável ao registado na sequência do advento da computação comercial, em 1984, e da internet comercial, em 1996.
Na secção “Macroeconomia e estratégia de investimento”, Bénédicte Kukla, Grégory Steiner e Adrien Roure explicam por que razão os mercados estão a entrar num período em que a volatilidade é mais uma característica do que uma adversidade e em que é essencial distinguir entre ruído cíclico e oportunidades estruturais. O cenário geopolítico continuará, provavelmente, a ser pontuado por choques episódicos, mas os motores económicos, cada vez mais alimentados pelo investimento das empresas, permanecem intactos. Para os investidores, isto justifica uma maior diversificação e um reforço da gestão do risco, conservando a exposição a setores e regiões que beneficiem do ciclo de CapEx e vendo nas agitações de curto prazo potenciais pontos de entrada. Os mercados do rendimento fixo registam tensões entre uma atividade resiliente, por um lado, e pressões inflacionistas temporariamente elevadas, por outro, mas o ambiente do crédito em geral permanece construtivo.
Monthly House View, 20.03.2026. - Excerpt of the Editorial
01 abril 2026
